Saint-John Perse e o país de Maria Martins

ed. A.A.Bispo

Revista

BRASIL-EUROPA 171

Correspondência Euro-Brasileira©

 


Pointe-a-Pitre/Guadeloupe. Foto A.A.Bispo 2017.Copyright ABE

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Fotos A.A.Bispo 2018©Arquivo A.B.E.

 


N° 171/14 (2018:1)



Saint-John Perse (1887-1975) e o „país de Maria“ (Maria Martins, 1900-1973)
Poesia, diplomacia e música em processos culturais internacionais do século XX
- Guadeloupe, França, EUA e Brasil -


Estudos euro-brasileiros no Caribe, 2017. Musée Saint-John Perse, Pointe-à-Pitre, Guadeloupe

 


Pointe-a-Pitre/Guadeloupe. Foto A.A.Bispo 2017.Copyright ABE
Um dos principais museus de Pointe-à-Pitre, capital de Guadeloupe, Departamento do Ultramar da França no Caribe, é, ao lado do Museu Schoelcher, hoje em reconstrução, o Museu Municipal Saint-John Perse.
Comemorando os seus 30 anos  em 2017, foi alvo de uma revisita no âmbito dos estudos euro-
Pointe-a-Pitre/Guadeloupe. Foto A.A.Bispo 2017.Copyright ABE
brasileiros levados a efeito no Caribe.

Como o seu nome indica, o museu é dedicado a Saint-John Perse, poeta e diplomata nascido em Guadeloupe, cujo significado e projeção internacional evidenciam-se no fato de ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura em 1960.

Por diferentes motivos a consideração desse vulto da literatura e diplomacia do século XX é de significado para os estudos relacionados com o Brasil. Esse significado apenas pode ser reconhecido e avaliado a partir de uma perspectiva ampla, interdisciplinar e dirigida a contextos e interações internacionais no estudo de processos culturais.

Pointe-a-Pitre/Guadeloupe. Foto A.A.Bispo 2017.Copyright ABE
Marie-René Auguste Alexis Léger  - „Saint-John Perse“

Marie René Auguste Alexis Léger nasceu em 1887 em Pointe-à-Pitre, de família tradicional e de posses, pertencendo ao círculo social privilegiado e culto de Guadeloupe.

O seu pai era advogado, de família de juristas que vivia em Guadaloupe desde 1815. Sua mãe, Françoise Renée Dormoy, provinha de família de ricos plantadores e oficiais a marinha atuantes em Guadeloupe e na Martinique desde o século XVIII.

Alexis Léger passou os primeiros 12 anos de sua vida entre a casa urbana da família em Pointe-à-Pitre, a casa-grande La Josephine no planalto de Saint-Claude - com as suas plantações de café - e naquela de Le Bois-Debout, Capesterre-Belle-Eau, voltada à exploração açucareira.

Pointe-a-Pitre/Guadeloupe. Foto A.A.Bispo 2017.Copyright ABE
Nesse ambiente patriarcal protegido, procurava-se acompanhar modêlos e tendências européias em conservação de status, contínua ascensão social e aperfeiçoamento pessoal. Alexis Léger cresceu envolto pela prática poético-musical de sua mãe e de suas irmãs criadas segundo os critérios da educação feminina de então, e pelas aspirações profissionais de seu pai. 

Como no Brasil, o estudo do Direito surgia como o caminho para posições mais altas na política, na vida pública e intelectual. Muitos são assim os paralelos entre a vida de Alexis Léger em Guadeloupe e aquelas de personalidades brasileiras do século XIX e nessa formação poder-se-ia procurar bases para um interesse humanístico pela antiga cultura e filosofia.

Em época de crise econômica na agricultura de Guadeloupe, a família transferiu-se em 1899 para a França, onde, em Pau, o seu pai passou a atuar profissionalmente. Léger, seguindo a tradição familiar, realizou os seus estudos de Direito e de Ciências Políticas em Bordeaux e Paris, e de fato foi essa formação que lhe possibilitou seguir a vida diplomática.

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De uma „Europa“ fora da Europa à França - Images à Crusoé

Durante os seus estudos, Alexis Léger escreveu Images à Crusoé, publicando-o na Nouvelle Revue Française em 1909. A estória de Robinson Crusoé, que vive o retorno à civilização como destino de um condenado sempre martirizado pela lembrança da ilha, correspondeu ao caminho de vida sentido por Alexis Léger.

Uma espécie de síndrome de Crusoé poderia explicar uma nostalgia do passado feliz no ambiente patriarcal das casas grandes patriarcais e na mansão urbana em lembranças iluminadas da ilha na exuberência da sua natureza e nos seus costumes naturais ou „primitivos“, valorizados na idealização à distância.

Essas relações Cultura/Natureza inscritas em processos culturais de jovens vindos de ambientes marcados pela cultura européia de regiões extra-européias mereceriam ser consideradas com maior atenção nas considerações sobre o fascínio pelo „primitivo“ na arte, na música e no pensamento francês pela passagem do século e suas associações com o natural, com a simplicidade, o despojamento, mas também com a energia vital e o rítmo.

Jeunesse dorée de círculos sociais e intelectuais - intelectualidade e diplomacia

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Um outro aspecto a ser considerado - e que também encontra paralelos com a juventude intelectual brasileira da época -, é o fato de Alexis Léger vivenciar anos de intensa vida cultural e social mundana, de visita a teatros, a cafés e bares com os seus círculos intelectuais e artísticos, dando particular atenção à aparência pessoal e no comportamento social, à elegância e moda no trajar, à sociabilidade e à vivacidade de espírito em conversações. Foi dandy que se movimentava em círculos sociais do chic, e também sob a perspectiva dos estudos relacionados com o Brasil mereceria mais atenção a influência de uma chic-eria intelectual e artística no desenvolvimento do pensamento e da criação artística no século XX.

Em 1910, Alexis Léger terminou os seus estudos de Direito e publicou a primeira versão de Eloges sob o pseudônimo SaintLéger. Nessa época, encontrou Paul Claudel (1868-1955), escritor, poeta, diplomata, pensador convertido ao Catolicismo, personalidade que viveu em diversos países do mundo, fascinado sobretudo pelo Extremo Oriente e que, em anos seguintes, também atuou no Rio de Janeiro.

Esse fascínio pelo Oriente - um aspecto significativo da vida cultural e do pensamento que procurava uma renovação do Ocidente - teria a seguir reflexo na própria vida de Alexis Léger como diplomata e escritor.

Já em 1911, Alexis Léger foi introduzido em círculos do Ministério dos Assuntos Estrangeiros francês. Residindo em Paris, faz frequentes viagens pela Europa nos anos que antecederam a Primeira Guerra, sobretudo à Inglaterra, demorando-se em Londres em 1912/1913). Durante esses anos, travou conhecimentos com personalidades de maior projeção de círculos literários e artísticos internacionais, entre outros com Paul Valéry (1871-1945), André Gide (1869-1945), com o compositor Eric Satie (1866-1925) e, em Londres, com Rabindranath Tagore (1861-1941).

O universo do Quai d‘Orsay - diplomacia e vida cultural no entre-guerras

Tendo entrado para o serviço diplomático em 1914, uma das primeiras e marcantes de suas atividades foi a ida como secretário de legação a Peking. No Extremo Oriente, realizou viagens por diversos países.

Após a Primeira Guerra, atuou como conselheiro de Aristide Briand (1862-1932), Ministro do Exterior da França, passando, em 1929, a Diretor de Assuntos Políticos. Tendo sido apoiado por Philippe Berthelot (1866-1934), Secretário Geral do Ministério do Exterior, foi o seu sucessor a partir de 1933.

Por motivo de seu posicionamento relativamente à política francesa perante a Alemanha, desse cargo foi afastado em 1940, perdeu a cidadania francesa, teve as suas posses confiscadas e emigrou para os Estados Unidos. Em Washington, atuou como conselheiro da Library of Congress. Após a Segunda Guerra, reabilitado na França, retornando em 1957.  Pelo renome que alcançou nos Estados Unidos, foi nomeado membro da American Academy of Arts and Sciences em 1963.

O Museu Saint-John Perse em antiga mansão urbana de Guadeloupe

Chama a atenção o fato de Guadeloupe celebrar uma personalidade que, embora  ali nascida, passou grande parte de sua vida na Europa e no meio cultural e diplomático internacional.

Sendo Guadeloupe considerada como „Europa“, ainda que nas Antilhas, compreende-se que o poeta e diplomata seja ali especialmente lembrado. Essa celebração, na sua intensidade, dificilmente poderia ser encontrada em país independente da região, nos quais o passado colonial e os círculos sociais de europeus e plantadores são antes considerados criticamente.

O museu torna-se assim, instituição que trata da vida social e cultural do século XIX sob um signo antes valorizador na medida em que procura considerá-lo sob a perspectiva de um contexto que criou um grande vulto do pensamento e da literatura de projeção mundial.

Nesse sentido, adquire significado também para os estudos voltados ao Brasil, uma vez que também aqui registram-se descendentes de antigas famílias de posses enriquecidas com plantações, de vida familiar e cultural orientada segundo a Europa e que, bem formados, transferiram-se para mansões construídas em capitais, dando a seguir continuidade a seus estudos na França, tornando-se destacados representantes da intelectualidade, da literatura, das artes e da música.

Em ano no qual se relembra os 30 anos de falecimento de Gilberto Freyre (1900-1987), o autor de Casa Grande e Senzala, torna-se oportuno lembrar essas relações entre as casas grandes senhoriais dos engenhos e fazendas e as grandes mansões nas capitais, assim como desenvolvimentos que levaram à transferência de centros de vida de proprietários do rural ao urbano.

Pointe-a-Pitre/Guadeloupe. Foto A.A.Bispo 2017.Copyright ABE

Das casas grandes das plantações à mansão urbana

O museu encontra-se instalado numa mansão que surge como exemplar do modo de vida de família de posses do século XIX, mas na qual o poeta nunca viveu.

Nos anos de 1970, a casa foi adquirida pela cidade para abrigar o museu dedicado a Saint-John Perse. Nesse trabalho, foi assistida por uma parente do poeta, Denise Derivery Dormoy, presidente da Association Guadeloupéenne Saint-John Perse e que colocou à disposição cartas, antigos cartões postais e outros objetos - grande parte de seus materiais encontra-se em Aix-en-Provence, para onde foram entregues pelo próprio poeta e onde atua a fundação com o seu nome. O museu de Guadeloupe foi inaugurado em 1987 por ocasião do centenário de nascimento de Saint-John Perse.

O edifício adquire interesse para a história da arquitetura de orientação cultural sob diferentes aspectos. Com êle relacionam-se estórias e lendas. Por muito tempo supôs-se que tinha chegado a Guadeloupe devido a circunstâncias imprevistas. Adquirida na França juntamente com uma outra casa por uma pessoa de posses de Louisiana, com estruturas atribuidas Gustave Eiffel (1832.1923), o navio que a trazia teria sido obrigado a parar em Pointe-à-Pitre devido a um ciclone. As casas teriam sido vendidas pelo capitão em leilão e adquirida por Ernest Souques, diretor da usina Darboussier.

Essa estória, porém, revelou-se como infundada; Ernest Souques teria comprado a casa através de um catálogo, construindo-a de modo a poder ver a sua fábrica. Não se sabe quando a casa foi encomendada, sabendo-se que foi terminada em 1875.

A casa foi construída assimn com elementos e materiais importados, entre outros estruturas de metal, mármore e madeiras nobres, azulejos, painéis de madeira em salões internos, ornamentos de zinco em balcões.

No andar térreo, o museu expõe costumes históricos, móveis em jacarandá, objetos do dia-a-dia e quadros.


Nos andares superiores, instalou-se uma exposição permanente dedicada à vida e à obra do poeta e diplomata, com reproduções de textos e poemas e obras literárias, fotografias, em particular de sua infância em Guadeloupe e objetos pessoais.

No jardim, o poeta e sua obra são celebrados O pintor local Thierry Alet transpôs o poema Exil (1942) em mural de grandes dimensões e o escultor local Jérôme Jean-Charles tratou plasticamente do Maroon. Ali colocou-se também um busto de bronze de Perse criado pelo escultor húngaro András Beck.



Saint-John Perse e a música - música na obra poética

Um ponto de partida para a compreensão do fascínio pela música de Saint-John Perse é o da sua formação, uma vez que a música era intensamente praticada na sua família. Na propriedade de Saint-Leger-les Feuilles, quando ainda muito criança, tomara um violino, procurando aprender a tocá-lo e nele reproduzir melodias. Essa paixão pela música atingiu tais proporções que o seu pai, inquietado, e contrariando a opinião de sua mãe e suas irmãs, desaprovou essa sua tendência, afastando o instrumento. Sem ousar desobedecê-lo abertamente, pediu ao jardineiro que fizesse para êle um pequeno violino de brinquedo. Na sua infância, acompanhava as aulas e piano e de bandolim de suas irmãs, escutava a sua mãe tocando violão, as retretas de banda de música no coreto municipal e o coro da igreja.

Após a sua mudança para a França, importante foi a influência de seu mestre Edouard Brunel (1844-1921).

Na sua juventude, teve o seu interesse despertado pelas correntes musicais contemporâneas, de C. Debussy (1862-1918) e da escola russa, seguindo-se sobretudo I.Strawinsky (1882-1971).

As relações de Saint-John Perse e a música - assim como a musicalidade ou a música na sua obra literária - veem sendo alvo de estudos na atualidade e merecem ser consideradas nos estudos musicológicos e orientação cultural, também naqueles referentes ao Brasil.

Uma particular atenção merece o fato de Léger aproximar-se sobretudo do círculo da Schola Cantorum. Uma das obras que mais despertou o seu interesse foi a Sonata para piano de Vincent d‘Indy (1851-1932) executada pela sua irmã.

Essa proximidade traz à memória o significado do interesse teórico-musical da época e que se manifesta também na obra de compositores menos ou não vinculados à Schola Cantorum. Essa atenção a questões teórico-musicais foram consideradas de forma mais diferenciada em seminário de 2002/2003 dedicado ao Groupe des Six da França no período que se seguiu à Primeira Guerra, uma época na qual vários músicos brasileiros especializaram-se e atuaram na França e que foi de extraordinário significado para a história do pensamento estético e a criação musical no Brasil.

Saint-John Perse e Darius Milhaud (1892-1974)

A consideração dos vínculos de Saint-John Perse com a vida musical francesa, em particular com compositores do Grupo dos Seis abre caminhos para análise de desenvolvimentos do pensamento e da criação artística nos seus elos com a política cultural e, em particular, com a diplomacia. Um dos compositores desse grupo, Louis Durey (1888-1879), apresentou, em Paris, uma obra baseada em Images à Crusoë.

Entre os muitos aspectos a serem considerados, cumpre lembrar o papel desempenhado por Paul Claudel tanto no pensamento e na criação de Saint-John Perse como em Darius Milhaud compositor que fatuou na legação francesa no Rio de Janeiro sob Claudel. Autor de „Saudades do Brasil“, de tanto significado na história das relações entre a Europa e o Brasil, emblema sonoro da academia de renovação cultural e artística criada em Salzburg após a Guerra, foi também compositor que colocou em música poema de Saint-John Perse (Éloge, op. 39)

O interesse teórico-musical e pelo clássico da Schola Cantorum torna compreensível o significado dado pelo poeta ao contraponto e à fuga, que lhe pareciam a base de toda a arte. Tem-se considerado que estruturas nos seus poemas revelam uma escritura polfônica: cada tema é retomado sucessivamente numa ordem regular por várias vozes. Esse contraponto textual pode ser reconhecido antes através de uma leitura silenciosa do texto. Nesse sentido, as suas obras poderiam ser comparadas com uma partitura a ser lida, soando internamente. Isso explicaria porque Saint-John Perse não queria que os seus poemas fossem recitados. Significativamente, os compositores que se inspiram nos poemas trataram do textos com recursos contrapontísticos. 

Como discutido no seminário dedicado ao Groupe des Six e no colóquio que a êle se seguiu no Rio de Janeiro em 2002 pelo encerramento do triênio dos 500 anos do Brasil, o politonalismo sempre salientado nas obras de Darius Milhaus deve ser analisado nas suas relações com as preocupações teórico-musicais da época, em particular daquelas referentes ao ciclo das quintas. (Veja) A consideração da politonalidade sob a perspectiva desses seus fundamentos teóricos pode fornecer subsídios a leituras mais profundas da obra literária de Saint-John Perse no que diz respeito à processos polifônicos ou contrapontísticos nela reconhecidos.

Saint-John Perse e Maria Martins (1900-1973)

Sendo a vida cultural, o pensamento e a criação poética de Saint-John Perse estreitamente vinculados à sua carreira diplomática desde o impulso recebido por Paul Claudel, o seu estudo abre caminhos para a consideração do papel desempenhado pelo meio social, intelectual e artístico de diplomatas em processos culturais e correntes estéticas no século XX.

Esse meio favoreceu contatos e relações humanas e a criação de rêdes que tiveram consequências tanto para a vida internacional de personalidades da cultura e das artes, para a promoção cultural e a imagem de países no Exterior e, através de seus elos com esferas governamentais. para o prestígio a projeção de artistas e de correntes estéticas em diferentes países.

No caso dos elos de Saint-John Perse com artistas brasileiras, cumpre salientar a sua amizade com a escultora, gravadora, desenhista e escritora  mineira Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza, esposa de Carlos Martins Pereira e Souza (1884-1965), embaixador brasileiro nos Estados Unidos de 1939 a 1948.

Exilado nos Estados Unidos nessa época, Saint-John Perse entrou em contato com o meio brasileiro, encontrando, em Maria Martins, uma artista cujo pensamento e obra apresentavam sintonias com os seus.

A consideração dessa proximidade entre Saint-John Perse a Maria Martins assume particular interesse sob a perspectiva interdisciplinar, uma vez que ambos tinham obtido formação musical, atuando respectivamente na criação poética e nas artes visuais.

Maria Martins, etudara música e pintura no Brasil, passando a dedicar-se à escultura na Bélgica, em 1936. Com a transferência de Carlos Martins para Washington, Maria Martins deu continuidade a seus estudos de escultura com Jacques Lipchitz (1891-1973), apresentando os seus trabalhos em exposição individual na Corcoran Art Gallery em New York, em 1941. Através de André Breton (1896-1966), entrou em contato com artistas de renome contemporâneos da Europa. Em Paris a partir de 1948, fêz com que o seu estúdio se tornasse local de reuniões de intelectuais e artistas.

Retornano ao Brasil em 1950, Maria Martins desempenhou significativo papel no movimento artístico-intelectual, cooperando nas primeiras bienais de São Paulo e na fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Uma época significativa de sua carreira deu-se por ocasião da inauguração de Brasília. Encontra-se representada com uma de suas obras nos jardins do Palácio da Alvorada, obra emblemática que revela elos com a música na sua designação „Ritmo dos rítmos“.

Saint-John Perse e o Brasil - o „país de Maria“

Em carta a Maria Martins no Rio de Janeiro, escrita em Washington em 1960, o poeta salienta o quanto lamentou não ter podido descer no Rio quando sobrevoava o Brasil vindo da Argentina. Ele tinha sido convidado pelo Govêrno argentino e viajava em aeronave argentina que não fazia escala na capital brasileira. Era muito grato pelo convite do governo brasileiro e que tinha sido sem dúvida devido a Maria Martins. Teria sido para êle a realização de um sonho de longa data conhecer o país de „Maria“, que o atraía por muitos motivos pela sua potente vitalidade - o sonho obcessivo da Amazônia, do rio Amazonas, das grandes florestas.

Gostaria ter visto Maria mais uma vez, emoldurada „por toda a sua escultura pagã“ - a Maria de Washington e New York, agora livre de suas tarefas como embaixatriz, por fim só com os seus „deuses selvagens“.

Ele tinha perdido a oportunidade, há três anos atrás, de ter ido com amigos americanos à inauguração do Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro.

Ouvira, na época, que Maria Martins tinha estado na China e gostaria de comparar as suas impressões como viajante com as suas antigas lembranças da época em lá atuara como diplomata e percorrera vários países .

Acreditava que o convite oficial do Govêrno Brasileiro não ia ser renovado, ao menos se houvesse algum motivo pelo acontecimento único que era a inauguração e Brasilia. Em revista da época (The National Geographic, Maio 1960, 707), tinha visto uma foto de escultura que Maria Martins criara para uma das esplanadas de Brasília. Queria ter notícias de sua obra, sempre tão próxima quanto possível das fontes primitivas.

Sabia o que perdera pelo fato de não ter podido visitar o Brasil no seu vôo de Buenos Aires. Mas por diferentes motivos tivera que retornar a Washington. A sua estada na Argentina durara mais do que esperava. Tinha sido convidado por doze dias e ali permanecera um mês e meio. Para um françês, a forma com que foi recebido no país tornara irresistível essa extensão. Um de seus grandes sonhos e mais secreto desejo era um dia visitar a Patagonia, o Estreito de Magalhães, a Terra o Fogo e o Cabo Horn. Graças ao Govêrno Argentino, teve a possibilidade de viajar a Ushuaya, uma região que era um os pontos magnéticos do globo - a do domínio do vento. Nunca tinha feito experiência similar desde a liberdade que sentira nas suas cavalgadas no deserto Gobi e na Ásia Central.

Que surpreendente teria sido o prodigioso contraste com a selva brasileira. (St.-John Perse, Letters, traduzido e editado por Arthur J. Knodel, New Jersey, Princeton university Press 1979: Bollingen Series LXXXVII:2; Paris: Gallimard 1972).

De estudos euro-brasileiros no Caribe em 2017
Antonio Alexandre Bispo

Indicação bibliográfica para citações e referências:
Bispo, A.A. „Saint-John Perse (1887-1975) e o „país de Maria“ (Maria Martins, 1900-1973). Poesia, diplomacia e música em processos culturais internacionais do século XX - Guadeloupe, França, EUA e Brasil“
. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 171/14(2018:1).http://revista.brasil-europa.eu/171/Saint-John_Perse_e_Maria_Martins.html


Revista Brasil-Europa - Correspondência Euro-Brasileira

© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1998 e anos seguintes © 2017 by ISMPS e.V.
ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501


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