O Istituto musicale Zelioli na Villa Gomes

ed. A.A.Bispo

Revista

BRASIL-EUROPA 161

Correspondência Euro-Brasileira©

 

_________________________________________________________________________________________________________________________________


Índice da edição     Índice geral     Portal Brasil-Europa     Academia     Contato     Convite     Impressum     Editor     Estatística     Atualidades

_________________________________________________________________________________________________________________________________

N° 161/06 (2016:3)




O Civico Istituto musicale Giuseppe Zelioli na Villa Gomes

questões de nomes: restauração sacro-musical e visão do mundo em tradição iluminista


50 anos de homenagem a Carlos Gomes em São Paulo (1966)

40 anos do início do programa euro-brasileiro em Milão (1976)

30 anos do Ano Carlos Gomes (1986)


 

A Villa Brasilia em Maggianico/Lecco, construída e habitada durante alguns anos pelo compositor Antonio Carlos Gomes (1836-1896), hoje conhecida como Villa Gomes/Villa Gomez (Veja), adquirida em 1971 pela Comune di Lecco, abriga hoje a Civico istituto musicale Giuseppe Zelioli e a Biblioteca Specializzata in Musical del Comune di Lecco.


Restauração e intervenções na Villa Gomes


Para preencher as novas funções, o edifício passou por intervenções de restauro, reforma e adaptações segundo projeto do escritório Terragni, de Como.


Primeiramente, restaurou-se o telhado e dois pequenos anexos rústicos, antiga estalagem e casa de guarda. A seguir, procedeu-se à reforma de toda a construção.


Esses trabalhos, embora tendo o cuidado de respeitar a arquitetura da histórica residência, mantendo intacta a sua aparência externa,
Villa Gomes/Maggianico. Foto A.A.Bispo 2016. Copyright
introduziu modificações consideráveis no seu interior.


Exteriormente, apenas um decente fechamento com vidro dos vãos entre as colunas de sua área de entrada revela a reforma por que passou a construção.


No interior, porém, as intervenções são mais acentuadas, e os espaços, sobretudo com a retirada da maior parte dos afrescos que ornamentavam as salas. não podendo ser restaurados por se encontrarem deteriorados, apresentam-se hoje despojados e avançados esteticamente na clareza de linhas e formas.


Algumas intervenções, com o intuito de adaptação funcional dos espaços às finalidades escolares e administrativas do instituto, modificaram mais profundamente o projeto original, como é o caso dos amplos e modernos sanitários no primeiro piso, que impedem a passagem livre ao terraço da frente do edifício, uma área que fora de importância para a contemplação do parque no qual a Villa se insere e que foi de fundamental significado para a sua concepção. O próprio Antonio Ghislanzoni (1824-1893) registrou a paisagem admirável que se descortinava do segundo piso da residência. (Veja)


Villa Gomes/Maggianico. Foto A.A.Bispo 2016. Copyright


Apesar de todas as modificações, conservou-se importantes elementos do passado da construção.


Aquele que entra no Civico Istituto continua a deparar-se com o emblema Pro Brasilia com a interpretação musical das armas imperiais brasileiras, assim como com as grandes plásticas do Cacique e de Peri de Il Guarany, presentadas pelos seus editores a Carlos Gomes.


Das pinturas internas, conservou-se no seu todo apenas o painel de grandes proporções do teto das escadas que levam aos pisos superiores.


Da decoração com afrescos do salão e de outras salas representativas da antiga residência, retiraram-se algumas partes que hoje servem como painéis decorativos e relitos indicadores da pintura interna do edifício.


Se o brasão emblemático de entrada e as plásticas de figuras das óperas de Carlos Gomes sinalizam antigas concepções que impregnaram a Villa Gomes, as pinturas internas conservadas são à primeira vista de difícil interpretação ou arbitrárias a serviço de caprichos decorativos segundo critérios estéticos de fins do século XIX, o que se revela como suposição infundada.


Leituras mais atentas da arquitetura nas suas inserções no contexto cultural de sua época permite que se reconheça uma lógica programática que revela a coerência entre a arquitetura e os temas e motivos da linguagem visual e plástica do seu interior. (Veja)


Carlos Gomes na atual escola de música - diferença de tradições


Villa Gomes/Maggianico. Foto A.A.Bispo 2016. Copyright

Sediando uma escola de música, o edifício vem de encontro a suas funções originais. Assim procedendo, a comunidade de Lecco instalou a escola de música em construção que remonta a uma das épocas mais florescentes da história cultural lombarda, a dos primeiros anos da década de 80 do século XIX, quando foi importante centro do movimento intelectual e artístico da Scapigliatura.


Tendo sido residência do compositor brasileiro, local de criação de obras e de recepções de intelectuais e artistas, tendo sido levantado sob o signo da música representado na lira em brasão à sua entrada, não poderia haver solução mais adequada para o uso do edifício do que aquele de nele abrigar um instituto musical. O compositor é lembrado em quadro recente, pintado em 1985, pendente em parede lateral de um corredor.


Do seu antigo mobiliario, apenas se destaca o piano de concertos no grande salão "à veneziana". Esse foi o piano utilizado pelo compositor brasileiro para a composição de suas obras e nas recepções que dava na Villa Brasilia.  Trata-se de um instrumento da firma Johann Heitzmann & Sohn, fabricante "real e imperial" de pianos de Viena, então uma firma das mais renomadas da Áustria, fundada em 1839.


Villa Gomes/Maggianico. Foto A.A.Bispo 2016. Copyright

Apesar da proximidade de funções através da música e apesar dos sinais emblemáticos conservados na Villa Gomes, o instituto musical que nela se encontra instalado é resultado de iniciativas que se prendem a outras correntes e contextos da história cultural do que aquelas do movimento que marcou a sua época de apogeu e as concepções que se revelam nos sinais que emitem a sua arquitetura, plásticas e pinturas.


Essas defasagens estão constantemente presentes, pois os sinais do passado da Villa Gomes clamam por uma consideração de afinidades e diferenças de concepções e contextos do movimento em que a construção se inscreveu e aqueles do atual instituto.


Intenções de ampliação das atividades da escola e estudos de Carlos Gomes


Nos diálogos com o diretor da instituição, o organista Gianluca Casena,  pôde-se constatar o interesse do instituto pelo passado do edifício e o intuito de valorizá-lo através de uma maior consideração da vida e obra de Antonio Carlos Gomes.


Esse intuito mostrou-se também necessário devido ao fato do instituto ter recebido visitas de brasileiros interessados na vida de Carlos Gomes. Lembrou-se aqui de visita relativamente recente de uma descendente do compositor, que até mesmo mostrou-se interessada na aquisição do histórico piano usado por Carlos Gomes.


Guardando materiais provenientes de pesquisas e de exposições enviados de Milão, em particular aqueles enviados pelo Centro Cultural Ítalo-Brasileiro, há a intenção de organizá-lo adequadamente e analisá-lo, uma tarefa que tomaria a si o professor de História da Música do instituto, o musicólogo Angelo Rusconi, especialista em Canto Gregoriano.


Tendo participado de seminários dirigidos pelo Prof. Dr. Giacomo B. Baroffio sobre códices litúrgico-musicais na Biblioteca Nacional em Roma, em 1989, teve um mentor que participou como conferencista convidado do III Simpósio Internacional "Música Sacra e Cultura Brasileira" realizado no Rio de Janeiro, em 1992. Angelo Rusconi obteve laurea em musicologia da Escola de Paleografia e Filologia Musical da universidade de Pavia, em 1990, doutorou-se em pesquisa em Musicologia na Universidade de Bologna,  e gozou da bolsa de estudos para trabalhos junto à seção de música da Fundação Ezio Franceschini, de Florença, em 1995, e da Fundação Wagner, em 2003. Colabora com o Pontificio Ambrosiano di Musica Sacra de Milão, é redator da revista Medioevo Musicale e preside a Associazione Res Musica - Centro Ricerca e Promozione Musicale. Também é diretor científico da Associazione Giacomo Carissimi - Archivio Gian Marco Manusardi.


O instituto dispõe de outros acervos moderlamente organizados, como é o caso do Fondo Giorgio Gaslini ou a Sala Giacomo De Santis (1935-1986)

Em princípio, o Civico istituto musicale Giuseppe Zelioli é uma escola de música que tem como objetivo proporcionar iniciação, ensino básico e adiantado a crianças e jovens, contando com centenas de alunos que, após o período escolar da parte da manhã, vêem à Villa Gomes para frequentar as aulas de instrumentos e matérias teóricas.


Além de oferecer preparação para eventual prosseguimento de estudos a nível superior em outras instituições, o instituto também é aberto àqueles que, já contando com formação musical, procuram aperfeiçoar-se.


As características e o desenvolvimento ampliador das funções do instituto são resultado dos contextos em que se inscreveram a iniciativa de sua fundação e a sua organização administrativa, assim como de tendências gerais do ensino musical na Itália e de medidas oficiais relativas à formação musical profissionalizante.


Nesse desenvolvimento, poder-se-ia constatar paralelos com a situação que levou às mudanças no ensino da música no Brasil nas últimas décadas, anteriormente conduzido pelos conservatórios, em grande parte particulares. Tendo estes se prendido sobretudo à tradição dos conservatórios italianos, a consideração dessas similaridades em desenvolvimentos assume interesse para ambos os lados.


Para a concretização de diretrizes e orientações voltadas à promoção de atividades musicais e do ensino, a administração municipal de Lecco incubiu a esta tarefa o Circolo Musicale di Lecco, uma entidade voltada à vida musical através da promoção de concertos. Projetou-se a criação de uma associação para o fomento da cultura musical com a participação municipal e provincial - do Comune e a Província di Lecco, uma entidade que se dissoveu assim que a Província retirou a sua participação, deixando a gestão da mesmo entregue exclusivamente ao Comune de Lecco.


Essa fase do desenvolvimento da instituição foi marcada pelo oferecimento de cursos de instrumentos e canto coral, mas também de matérias teóricas como teoria, solfejo e ditado, análise musical e história da música, com a participação de centenas de alunos. Os programas dos cursos orientavam-se segundo aqueles em vigor nos conservatórios do Estado. A juízo dos professores, os alunos podiam prestar exames regulares nesses institutos oficiais.


Nos anos que se seguiram, a escola abriu-se também àqueles interessados em música ou no próprio aperfeiçoamento de sua formação musical que, até então, tinham recorrido apenas a professores particulares ou a entidades de musicistas amadores.


A escola passou a ser frequentada por um número ainda maior de alunos, alcançando, em média, ca. de 250. O instituto, desde então, para além do ensino de instrumentos e de matérias complementares, promove ciclos de aperfeiçoamento para concertistas e de música de conjunto, em formações para alunos e professores, assim como conferências.


Atualmente, a gestão do instituto é apoiada pela Fondazione Luigi Clerici di Milano, uma entidade sem fins lucrativos e que tem como finalidade prestar serviços educativos e formativos a alto nível.

Esta entidade, fundada em 1972, mantém uma de suas 17 sedes em Lecco. O seu objetivo é colaborar com outras instituições, oficiais ou particulares, sociedades e organizações no sentido de contribuir à integração de forças e potencialidades, promover o conhecimento e fomentar um diálogo social profícuo. Nesse trabalho, tem ampliado o seu próprio campo de ações, que adquiriu cunho transnacional através de parcerias com outras organizações da União Européia e fora dela.


A fundação mantém cursos trienais de qualificação profissional para jovens, de alcance de diploma técnico-profissional, de formação personalizada para pessoas com deficiências físicas, de adultos, participando de projetos nacionais e internacionais em diferentes áreas da formação e tecnologia, da inovação didática, da cultura e outras. Os conhecimentos desenvolvidos sobre novas tecnologias pela fundação, em sinergia com a sociedade satélite Formatech, procuram levar a uma intensificação de potencialidades infra-estruturais e de organização com o sentido de melhor responder às exigências do mercado de trabalho e das transformações culturais causadas pela difusão de instrumentos multimediais e de práticas sociais através da Internet.


A designação do Civico Istituto musicale segundo Giuseppe Zelioli (1880-1949)


O fato da escola de música instalada na Villa Gomes trazer o nome de Giuseppe Zelioli merece particular atenção, uma vez que indica o contexto e as correntes culturais nas quais se inscreve, oferecendo assim pontos de partida para a consideração diferenciada de situações e concepções atualmente vigentes relativamente àquelas do passado.


Para os estudos euro-brasileiros, esse procedimento surge como fundamental, pois traz à luz as diferenças entre as esferas de pensamento e  de visão do mundo em que se inseriu Carlos Gomes, a sua Villa Brasilia e o Civico Istituto nela instalado.


A análise dos processos culturais que explicam essas diferenças contribui à tomada de consciência relativa a posicionamentos e perspectivas atuais e, consequentemente, ao tratamento consciente e adequado do passado por parte do Istituto.


Como elucidado pelo seu diretor, a designação da instituição justifica-se pelo desejo da comunidade de Lecco de perpetuar o nome de uma personalidade que durante quatro décadas desenvolveu intensa atividade na cidade, formando gerações e marcando a sua vida musical e instituições.


O fato do instituto não denominar-se de Carlos Gomes, mas sim de Zelioli tem, porém, dimensões mais amplas. Zelioli destacou-se sobretudo na esfera da música sacra, tendo sido organista da Basílica di S. Nicolò de Lecco, monumento da arquitetura religiosa e um dos principais centros da música litúrgica no século XX, além de ter exercido intensa atividade criadora como compositor de obras sacro-musicais.


Como exposto pelo diretor do Civico Istituto, que hoje atua como organista da mesma Basilica, para além de elos que vincularam Zelioli a sua própria família, foi êle o doador de órgão que hoje se encontra na sala de audições do Civico Istituto e que simboliza, já pela sua presença, os elos da instituição com a esfera sacro-musical representados pelo seu nome e as correspondentes dimensões espirituais da formação musical que implicam.



Zelioli passou a ser relembrado e revalorizado nos anos 80 e vem sendo hoje celebrado em Lecco em eventos e grupos musicais, salientando-se a Associazione musicale Harmonia Gentium, fundada em 1986, dirigida por PierAngelo Pelucchi e que realiza o Festival Zelioli, as International Reviews - Masterpieces of Holy Music (Rassegna Internazionale Capolavori di Musica Religiosa) e concertos para órgão, contribuindo à criação e ao desenvolvimento de uma "cultura musical qualificada" para toda a população e de oportunidades de troca de experiências e cooperações com iniciativas européias e de outros países a serviço do fomento da arte musical e da amizade entre os povos.


Com o Festival Europeu G. Zelioli para cantores jovens, a entidade revela a atenção que dirige à formação de novas gerações (Festival Europeo Cori Giovanilli Giuseppe Zelioli), desenvolvendo um projeto de título Europa Giovanni e Canto.


Giuseppe Zelioli e a restauração liturgico-musical segundo o Motu Proprio de Pio X



Zelioli nasceu em Caravaggio, no dia 13 de março de 1880, ou seja, no ano em que surgia a Villa Brasilia. Recebeu a sua primeira formação na escola de seu pai, Pietro Gaetano, diplomando-se em piano, órgão e composição. Ainda criança, atuou como organista em Carisate, pequena localidade de Brianza. Em 1904, ganhou concurso de organista da basilica de Lecco, cidade na qual passou a residir e atuar, nela transcorrendo toda a sua vida a serviço da música litúrgica, do ensino do órgão e do piano. da música antiga polifônica e da composição.


Correspondendo à época da restauração litúrgico-musical marcada pelo Motu Proprio de Pio X° (1903), o  pensamento de Zelioli, que participou ativamente no movimento da reforma da música sacra, foi marcado pelas suas normas e, sobretudo, pela convicção da dignidade da
música sacra, vista como a mais nobre forma de elevação a Deus, assim orientando-se na sua vasta produção sacro-musical e que inclui muitas missas, motetos e cantos religiosos. A sua criação inclui também peças para piano, para coro e outros instrumentos, além de trios e quartetos. Parte da sua obra é conservada no fundo do arquivo musical da Cappella Leonina e dos Pueri cantores da Basilica di San Nicolò.


A revalorização de Zelioli a partir dos anos oitenta do século XX deve ser considerada no contexto internacional das preocupações e iniciativas relativas à música sacra da época. Os intentos de manutenção do secular patrimônio sacro-musical visto como em risco por organistas, regentes corais e teólogos conservadores devido às reformas litúrgicas desencadeadas pelo Concílio Vaticano, levou a esforços e iniciativas que procuraram trazer à consciência a necessidade de retomar tradições e promovê-las, procurando um equilíbrio entre os intuitos de criação de música sacra adequada aos diferentes contextos culturais e a tradição do pensamento teológico-musical anterior ao Concílio.


Em plano internacional, o principal evento neste sentido foi o Congresso Internacional de Música Sacra promovido pela Consociatio Internationalis Musicae Sacrae (Roma) em Bonn (Veja)  e, a êle seguindo, o Simpósio Internacional "Música Sacra e Cultura Brasileira", realizado em São Paulo, em 1981. (Veja) Consequentemente, este evento realizado no Brasil, procurando salientar a necessidade de consideração adequada da música nas suas inscrições em processos culturais de todas as épocas, conservando e desenvolvendo assim o patrimônio cultural na riqueza de suas múltiplas expressões, também procurou revalorizar a obra de personalidades que tinham sido de relêvo nas décadas anteriores ao Concílio.


Ao mesmo tempo, porém, o Simpósio teve o cuidado de também relembrar e revalorizar a música sacra do período anterior ao movimento da reforma sacro-musical e que fora por este combatida. Entre os compositores representativos da música sacra coro-orquestral do século XIX representados no programa, encontraram-se vátios nomes, salientando-se, entre outros, músicos da região de A. Carlos Gomes, como Elias Alvares Lobo e Tristão Mariano da Costa, não, porém, o do próprio Gomes.(Veja) Dessa forma, o maior compositor brasileiro da sua época foi considerado no âmbito do Simpósio apenas nas reflexões tecidas verbalmente. Esse fato, em parte determinado pelas circunstâncias, refletiu sobretudo a problemática das relações entre Carlos Gomes e a música sacra.


Como mencionado no encontro de Lecco, as relações entre Carlos Gomes e a música sacra constituiram uma preocupação que marcou desde meados da década de sessenta os intentos de revalorização do século XIX no âmbito da renovação teórica dos estudos histórico-musicais em São Paulo.


Constatando-se então o significado da prática musical nas igrejas na vida musical do passado caído em esquecimento, silenciado ou desvalorizado tanto pela reforma sacro-musical como pela historiografia nacionalista, surgia como singular o fato de Carlos Gomes não ter-se projetado como compositor de música sacra.


Tendo recebido como muitos outros músicos formação marcada pela prática musical de igreja de Campinas, e esta, através de seu pai, remontante a significativa tradição sacro-musical de São Paulo, foi antes o seu irmão, José de Santana Gomes, que mais continuou presente com as suas composições religiosas nas igrejas paulistas.


Com o descobrimento de um manuscrito do Laudamus da Missa São Sebastião de A. Carlos Gomes em trabalhos no Vale do Paraíba em 1969, revelou-se um dos mais significativos exemplos de tratamento virtuosístico para voz solista dessa parte do Gloria, superando em brilho até mesmo o Laudamus da Missa de São Pedro de Alcântara de Elias Álvares Lobo. Carlos Gomes manifestava-se nessa obra como um representante excepcional do tratamento do texto segundo a tradição lírica do bel canto, fazendo com que surgisse à nova luz as referências conhecidas da literatura relativamente aos esforços de Francisco Manuel da Silva, como diretor do Conservatório Imperial de Música e seu mentor, de que obtivesse uma formação musicalmente sólida e se dedicasse à composição de obras sacro-musicais. Talvez a própria ida de Carlos Gomes a estudos a Milão - e não à Alemanha -, parece poder ser explicada por essa preocupação de Francisco Manuel da Silva relativamente a uma música sacra não-teatral.


Da correspondência entre Carlos Gomes e Francisco Manoel percebe-se o quanto este tinha Sigismund von Neukomm como modelo de exemplaridade e como tinha confiança absoluta na orientação severa do professor de Carlos Gomes em Milão, Lauro Rossi (1812-1885). Nele via a garantia de que Carlos Gomes, embora na Itália, recebesse uma formação similar áquela que experimentara com Sigismund von Neukomm. Francisco Manuel da Silva pedia que Carlos Gomes escrevesse missa para a Capela Imperial, este porém, ainda que expressando convicção de que a música sacra deveria ser tratada diferentemente daquela do teatro, reconhecia que o seu interesse e a sua aptidão não se encontrava na esfera sacro-musical.


Na troca de idéias de Lecco, salientou-se, assim, a necessidade de uma maior distinção na consideração da música sacra com acompanhamento orquestral do século XIX. A consciência de que a música para o culto deveria ser tratada diferentemente daquela para o teatro - ou seja, a consciência de uma dignidade da música sacra - existiu e foi até mesmo acentuada em muitos compositores que se distinguiam pelo seu empenho pela dignidade da música sacra.


Um outro aspecto mencionado no encontro de Lecco foi o das relações de Carlos Gomes com a maçonaria, o que indicaria um edifício de idéias, imagens e convicções que explicaria a sua distância à música sacra. O movimento de restauração católica procedia em contexto politico-eclesiástico no qual se dava o combate à maçonaria pela Igreja e que teve um de seus principais documentos a Encíclica Humanum genus do Papa Leão XIII de 1884. Significativamente, no féretro pelo seu enterro, em Belém, em 1896, estiveram representas várias lojas de nomes Aurora Harmonia e Franternidade, Renascença, e Firmeza e Humanidade.


De ciclo de estudos sob a direção de

Antonio Alexandre Bispo



Atenção: este texto deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Veja o índice da edição





Indicação bibliográfica para citações e referências:
Bispo, A.A. (Ed.).“ O Civico Istituto musicale Giuseppe Zelioli na Villa Gomes. Questões de nomes: restauração sacro-musical e visão do mundo em tradição iluminista “
.Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 161/06 (2016:03). http://revista.brasil-europa.eu/161/Istituto_Zelioli_Villa_Gomes.html


Revista Brasil-Europa - Correspondência Euro-Brasileira

© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1998 e anos seguintes © 2016 by ISMPS e.V.
ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501


Academia Brasil-Europa
Organização de Estudos de Processos Culturais em Relações Internacionais (ND 1968)
Instituto de Estudos da Cultura Musical do Espaço de Língua Portuguesa (ISMPS 1985)
reconhecido de utilidade pública na República Federal da Alemanha

Editor: Professor Dr. A.A. Bispo, Universität zu Köln
Direção gerencial: Dr. H. Hülskath, Akademisches Lehrkrankenhaus Bergisch-Gladbach
Corpo administrativo: V. Dreyer, P. Dreyer, M. Hafner, K. Jetz, Th. Nebois, L. Müller, N. Carvalho, S. Hahne
Corpo consultivo - presidências: Prof. DDr. J. de Andrade (Brasil), Dr. A. Borges (Portugal)




 











Fotos H. Huelskath 2016©Arquivo A.B.E.